o nascimento do "cool".
entre fotos antigas e CDs esquecidos, revisito minha infância, minhas feridas e meus desejos — e descubro que o “eu” que sempre procurei estava ali o tempo todo.
há, na casa da minha mãe, um móvel vinho na sala. por algum motivo, os móveis da nossa infância seguiam esse padrão. mamãe sempre gostou de tons mais neutros, terrosos e roxos. além de amarelo, branco ou preto, ela inovou nas cores quando éramos bem pequenos. vinho, terracota, lilás, marrom e, às vezes, vermelho falú e violeta. ela influenciou muito bem eu e minha irmã, cada um se dedicando fielmente a uma dessas cores – duvido adivinharem quem escolheu qual. nessa cômoda bordô, mais especificamente, na última gaveta, existem fotos e cds contendo vídeos caseiros ou profissionais gravados de mim, da minha irmã mais nova, minha madrinha e dos meus pais. álbuns separados por época, por pessoa, por evento. eu sempre me perco nas fotos quando eu volto para lá. fico muito tempo só sentado no chão da sala, pernas de borboletinha, minha pele sentindo o frio. imerso nos álbuns amarelos da kodak e no bordô. mordo os lábios virando as páginas de plástico.
abro a pasta de discos jurássicos, todos holográficos e assinados. datas, eventos, filmes. pego um cd. coloco no computador, “formatura primeiro ano felipe”. começa a rodar. o disco prata antiquado. escutando as primeiras notas de a thousand miles de vanessa carlton. sorrio, achando bobo a escolha. eram os anos dois mil, lembro. eram os anos dois mil numa cidade de dez mil habitantes.
eu, na verdade um eu de cinco anos, apareço por menos tempo em relação a qualquer outro aluno. há um close em mim. fico só acenando. lembro da vergonha mortal. minha lancheira azul da sadia – herdada do meu padrasto – meio torta, já que tentava acenar sem soltá-la. sorrindo sem jeito. correndo da câmera, querendo, secretamente, ser capturado por ela. depois, só na cerimônia de formatura. com vergonha, puxei meu par para o canto e não aparecemos muito na hora da dança. mas focam em nós por alguns segundos. olhos marejados. encaro estático meu eu criança. feio, era como eu costumo me referir a mim mesmo criança. cruel, mas honesto.
outra cena, estamos na mesa alugada. uma porção de batatas fritas. eu lembro de odiar a luz do flash e querer, muito, também, que gravassem minha família. especialmente, minha irmã. eu estava contente de estar com aquelas pessoas. eu não queria sair da mesa. pause.
encaro meus pais, também mais jovens. minha irmã mais nova e seus cabelos enrolados de criança. play. outra vez, marejar dos olhos. mas minhas mãos estão paradas. meu rosto é feito de lágrimas e minha memória se prepara para saltos rápidos.
vou ao banheiro lavar meu rosto um pouco, sempre me emociono com esse meu eu pequeno. a cada passo uma memória. um caminho excitante, mas solitário. quando eu fiz amizade com minha prima, camila. vizinha e parceira de todas as melhores memórias. conhecer julia b., minha irmã de outra família. os vizinhos que me chamavam de “viadinho” ou “gayzinho!”. não entender a velocidade das coisas. odiar ir para outra cidade todo final de semana. minha mãe, sempre paciente. “são homens que gostam de homens, mas onde você aprendeu isso felipe? quem te chamou assim?”. rosto desapontado. ficar sozinho numa casa estranha, a do meu pai. “você deveria ser mais homem, ser o melhor, mas não serve nem para amarrar seu tênis”. brincar sozinho toda tarde, quando minha irmã, mannu, estava na aula. recreios. chorar no banheiro, baixinho. mudar de escola. gargalhar com uma amiga, que agora vai casar. ir ao clube com meu pai biológico, e fingir que estava dormindo para ouvir a conversa dos amigos dele. “ele não vai emagrecer nunca? tá feio já.” entender que gosto de meninos. encontrar uma paz secreta, quando entendi. sempre entendi tudo. perceber que há uma coisa dilacerante entre eu, essa ideia inconclusiva de mim que possuo e duelo diariamente, e esse passado vazio, que se preenche frustrado. fazer amizade com os esquisitos. com uma menina que não deveria ser tocada. com duas gêmeas legais demais para mim. antes, né? “quer dizer”, penso, “que eram muita areia para mim. eu amo elas.” hoje. mudar. crescer. mudar o tempo todo.
água gelada no meu rosto.
assusto-me. assusto-me agora. assusto-me, hoje. há algo prestes a nascer.
hoje, percebo olhando meu reflexo, minhas tatuagens e piercing, meu cabelo e minhas roupas. tudo o que judith butler chamou de atos que produzem o “eu”. atos de performance que aproximam essas personalidades que tentam se compreender. hoje, eu sou o que aquele menino queria ser. o que todos os “felipes” queriam? e qual preço paguei por tudo isso?
pensei no dia que fui com meus amigos furar o piercing. só me diverti, o tempo todo. pensando neles, tenho certeza de que são pessoas legais. que são cool. e, surpreendentemente, me considero assim também. mentalmente, me vejo no mesmo lugar que eles. no nosso clube secreto. nos corredores da faculdade. fora, nas festas. ao lado das minhas musas.
há um segundo milenar de estranhamento. então, eu sou legal? eu sou… cool?
alguém legal é muito bem definido em filmes, séries, cultura pop no geral. apesar disso, apresento uma definição diferente. para mim, uma pessoa verdadeiramente cool é muito mais do que alguém popular, que dita o próprio estilo próprio e tem uma atitude tranquila diante das situações. para mim, uma pessoa cool é uma musa.
pensei, primeiro em "the death of cool” onde charli xcx tem como tese, a ideia de “cool” não está em oposição direta ao comercial, mas sim na tensão entre autenticidade, especificidade e circulação ampla, sendo possível que algo permaneça interessante mesmo ao alcançar grandes públicos, desde que não perca sua integridade inicial. por exemplo, ao evocar julia fox em “360”, como figura que é simultaneamente onipresente e ainda vinculada a nichos, a autora sugere que o “cool” nasce de uma identidade estética e ética própria, capaz de resistir à homogeneização, e não de uma rejeição automática à popularidade. nesse sentido, o problema não é a massificação em si, mas o esvaziamento que ocorre quando uma obra, ao se expandir, passa a ser diluída, reinterpretada de forma superficial ou adaptada a uma lógica de “agradar a todos”, momento em que perde sua singularidade e, consequentemente, sua potência, revelando que o “cool” não morre por ser visto por muitos, mas por deixar de ser verdadeiramente algo de alguém.
minha definição salta para outro lado, em concordância com pérola mel, em seu texto seja minha musa: um ensaio sobre outras musas e mais musas. para a autora, uma musa é “aquela pessoa impossível de traduzir completamente: alguém que desperta fascínio, que se deseja observar, entender e até registrar, mas que sempre escapa de qualquer definição exata. mais do que aparência, ela carrega uma presença intensa — uma mistura de atitude, olhar, voz e forma de existir — que cativa e intriga. não é apenas alguém que inspira passivamente. é consciente do próprio impacto, participa do jogo de olhares e decide o que revela de si. assim, a musa se torna uma espécie de arte viva, que move quem a observa a tentar capturá-la — em palavras, imagens ou memórias — mesmo sabendo que nunca será possível representá-la por inteiro” (MEL, 2026.)
mas, argumento também, que ser descolado — eca, que velho falar assim — não apenas como um marcador social ou estético, mas como uma prática política e sentimental de encontro a si mesmo. isso significa cultivar aquilo que é específico, autêntico e sentido de dentro para fora, ao invés de buscar aprovação generalizada ou adesão a modismos. o indivíduo cria uma forma de presença que é simultaneamente reconhecível e resistente à homogeneização, permitindo que sua expressão seja intensa, contraditória e plural. nessa perspectiva, ser “cool” se torna uma espécie de ética do cuidado de si, em que a coerência interna, a integridade emocional e a audácia estética se combinam para produzir experiências que nos aproximam de nossa própria subjetividade, que nos permitem existir no mundo sem perder a singularidade, tornando a visibilidade algo que não dilui, mas reafirma, o próprio eu.
argumento, o “cool” precisa nascer.
os adolescentes e jovens adultos sempre foram o movimento oposto à normalidade. hoje, sendo o foco do capitalismo, perdemos um movimento muito único de autoexpressão. em tempos de guerra contra o conservadorismo, ser malcriado é correr em direção a um exército de fins. queimar bandeiras que não te representam. é vencer batalhas.
punks, hippies, hipsters, rappers, maximalistas, clubbers, brats. but only if you are brat at heart.
coolness is a tender revolution. é uma sala com luzes piscando, onde seu corpo é completamente seu e é presente. sua versão mais alta, chata e única de si mesmo. independente do exterior, sua. só sua. é ser livre.
claro, eu não sou o macrossomo. entretanto, posso criar um. urge segurar e guardar em você sua própria singularidade, apesar dos pesares, o que é algo extremante difícil.
então, questiono frente a tela do computador, pretensiosamente, eu me considero alguma dessas coisas?
maybe.
pensei, agora, no dia da minha tatuagem. em como tive que, numa viagem de vinte minutos até o centro da cidade, tive que desenrolar a linha que bloqueava minha visão. todas as teias colocadas ali por aranhas interioranas e suas percepções. “todos vão olhar, todos vão comentar, todos vão te julgar.” olhando para os lados com medo de uma falha.
quando liguei pra contar da tatuagem, minha mãe ficou em silêncio. algo costumeiro demais. eu podia argumentar, mas não acho que precise continuar me justificando. eu escolhi tudo: começar e encerrar o assunto. o desenho, o dia, o lugar, ficar irreconhecível cada vez que volto para minha cidade natal. parar de performar, ser.
ninguém te lembra de todos os anos em que você passou não sabendo de nada ao certo. ninguém te prepara para todas as imagens que vão se repetir. nada melhor do que alguém rasgando sua pele permanentemente para te fazer lembrar do silêncio e do rosto desapontado dos seus pais. apesar disso ser tudo o que eu sempre quis, há uma parcela de mim que sente uma culpa gigante. e, por algum motivo, ela parece ser a mesma que queria vomitar de ansiedade quando meus pais conseguiam ver o que – acredito eu – sempre foi eu. quando vazava uma pequena parte de algo que era essencialmente eu. quando eu era honesto sobre meus gostos. quando eu realmente escolhia uma roupa que me agradava, um passeio num museu ou uma música e narizes torcidos era o que eu recebia. gostava de provocar, ao atingir aquela idade onde frustração se torna ira, como quando eu fiz uma piada suja com piercings e a crucificação. fui repreendido, mas minha madrinha ia gostar. ri, lembrando. e ri de quando pintei as unhas de preto e meu padrasto ameaçou que faria seus filhos lerem a bíblia repetidas vezes, se um de nós fossemos gays.
eu nunca li ela toda.
a distância que se instaura entre o sujeito queer e sua família no processo de constituição de si pode ser compreendida, à luz de judith butler, como efeito das normas que precedem e moldam a inteligibilidade do próprio sujeito. em giving an account of oneself, butler argumenta que ninguém se forma fora de um campo normativo que define quais vidas são reconhecíveis e quais são relegadas à abjeção. assim, ao emergir como queer, o sujeito frequentemente rompe — ainda que involuntariamente — com os quadros de reconhecimento disponíveis no interior da família, produzindo uma lacuna afetiva e simbólica. essa distância não é apenas relacional, mas epistemológica: a família, ancorada em expectativas heteronormativas, já não dispõe das categorias necessárias para “ler” aquele corpo e aquela vida, enquanto o sujeito, por sua vez, passa a habitar uma zona de opacidade, na qual sua experiência não pode ser plenamente traduzida nos termos que lhe foram originalmente oferecidos. nesse sentido, a constituição da identidade queer implica não apenas um tornar-se, mas também um afastar-se — uma negociação contínua entre pertencimento e estranhamento, reconhecimento e perda.
conversando com minha amiga, falamos de todas as concessões que fazemos entre nós mesmos, indivíduos, e o nosso eu performando a vida interiorana. pensei em todos que deixei lá, e encontraram paz nessa zona cinza que concordaram em viver. e eu abdico.
a verdade é que: i've found family in coolness. encontrei esse sentimento nos meus amigos, que me escolheram seu amigo também. nos familiares que permanecem além sangue. na estranheza que provoco e me provoca. no desentender e no amar. no esquisito. diferente, bizarro, fora do comum, excêntrico, inusitado, peculiar. em todas as palavras cravadas com objetos cortantes em minha pele.
quando meu irmão, filho dele (meu padrasto) e outra mulher, que não minha mãe, fez sua primeira tatuagem – hoje ele tem os braços e peitoral fechados – só eu fiquei empolgado. meu padrasto o xingou e tirou sarro da tatuagem. nada de mal gosto, era uma referência a série favorita dele. eu lembro de me divertir olhando e falando sobre. lembro que ele sorria. lembro que ele sumiu por um tempo. sentia sua falta. acho que ele nem tem essa tatuagem mais.
eu podia entender o medo do preconceito. podia entender a quebra de expectativa. posso entender tudo o que um pai sente, em níveis diferentes. o que não consigo entender é o julgamento, de todas as coisas. quando passa a ser você contra seu filho. quando não é o mundo, mas seus olhos raivosos e mãos que apontam.
um sentimento vasto e solitário tomava meu corpo todo antes da sessão com o tatuador. na garganta, todas as conversas que eu nunca consegui ter. tudo o que me faria parte completa da família.
posso ser alguém cujos passos parecem estar comprometidos com ideia dele mesmo agradando somente o meu público pessoal, amigos e família, ou somente meu coração? ser meu ser que é tão cheio de si? existir por inteiro ou em fragmentos?
mas eu nunca pertenci a ninguém, mesmo.
e, de repente, todas as conversas que eu gosto de ter. explodindo. isso e uma agonia de sentir a agulha mais grossa preenchendo minha pele.
falamos sobre nossas experiências, meu tatuador e eu. não sei como seria minha vida no interior se eu tivesse sido bonito. muito menos se eu me encaixasse. se eu pudesse esperar amor do mundo, que te recebe de braços abertos todas as tardes, e te coloca para dormir com calma. mesmo assim, sou avesso aos ideais que correm livres naquelas cidades empoeiradas. mas, ainda gosto de ver os vagalumes.
eu escolho, deliberadamente, cortar esse galho da minha árvore de figos. esse é um futuro que nunca me pertenceu. e eu escolho outro. conversando, disse isso com certa raiva no tom. ele vem da cidade ao lado. sabemos muito bem sobre um e o outro. mas, continuo, eu sei o que é ser maior que isso. eu sei o que é construir um mundo de amor em represália a tanta rejeição. em manter e segurar uma luz que só eu vejo. eu sei o que é crescer de verdade. eu sei o que é sair, voltar. e ainda batalho para dizer o que penso de verdade, e digito esse texto chorando.
o sentimento reprimido de ser um adolescente destoante e questionador, ele ainda existe. e, apesar do capitalismo ter feito com que todos nós sofrêssemos lavagem cerebral e não fossemos jovens contra culturais questionadores, ainda temos uma pequena fagulha dentro de nós. na TV que brilhou e só você via. o roxo vivo. toque-o. ainda há tempo. precisamos bancar todos os nossos desejos.
existe uma decisão solitária de se lançar tão livremente ao desconhecido dentro de si. e eu dei esse pulo vezes demais. mais vezes do que salto ouvindo techno ou em uma rave. é hora de colher os frutos. eu não tenho mais dezessete anos. eu tenho os medos que tenho, e vontade suficiente de vencê-los.
se isso é tudo o que eu queria, eu preciso aprender a enxergar. e enxergo: sou legal.
e isso vai mudar, crescer e evoluir. e eu vou adorar acompanhar esse processo.
acompanhe-me. tenha medo. engula ele. mantenha, segure. festeje.
that light inside of you, keep it. hold it.
be fucking cool.





minha grande alegria ter ouvido vc ler esse aqui pra mim!!!! um dos meus favoritos de todos (mas nunca superará o do menino e a árvore)
https://substack.com/@plasticplastique/note/c-239001543?r=6e6wcn&utm_source=notes-share-action&utm_medium=web